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25/11/2004 10:22
Gravado em São Pedro dos Ferros " QUASE NADA" é eleito o melhor filme do 28° Festival de Cinema de Gramado
Nota oficial da Produção
Quase nada
SEM FREUD, SEM MARX, SEM DEUS
É assim que SERGIO REZENDE vê o mundo interior dos personagens de seu novo longa-metragem, QUASE NADA.
Depois de tantos filmes centrados em personagens e fatos históricos, o diretor partiu para um projeto radicalmente diferente: "Queria ter liberdade total, inventar sem estar preso a nenhum fato histórico, só ter compromissos com a dramaturgia e com o cinema. De alguma forma, eu vinha buscando através de meus filmes uma saída para este grande labirinto que é o Brasil. Pensava que, compreendendo o passado, conseguiríamos achar mais fácil a saída do labirinto. Também procurava fazer, dentro do próprio labirinto que é o cinema nacional, um filme que fosse viável, que se pagasse, etc. Vejo que isso é uma ilusão, esses labirintos não têm saída; a única solução possível é você pegar a marreta, arrebentar o muro e sair, ou seja, inventar a sua própria saída."
Nesse caso, a saída era voltar atrás, ou como diz ele, "zerar a pedra". Depois de grandes superproduções, Sérgio ia dirigir um filme de baixo orçamento; depois de grandes equipes, ia trabalhar com equipe mínima, sem sequer um assistente exclusivo; depois de filmar em Londres, ia partir para o interior de Minas Gerais. Voltando às origens, num trabalho de bricolage, como fez em seu primeiro longa-metragem, Até A Última Gota.
"QUASE NADA expressa um desejo meu de não me acomodar, de não perder a chama que sempre me mobilizou a fazer filmes. Fico pensando nas minhas ambições juvenis: fazer um longa, ganhar um festival, ser a maior bilheteria do ano... essas coisas com que a gente vai sonhando, eu fui realizando. Talvez antecipando a crise dos 50 que vem aí, tive medo de ficar blasé, "fetichizando" as coisas; um certo temor do aburguesamento.
Vejo que um pintor pode pintar tanto um mural quanto um pequeno quadro. Se eu sempre quisesse murais, levaria mais tempo pintando, mas eu não quero ser um diretor bissexto. Mais que isso, eu não quero ser obrigado a fazer só murais, a não poder ter o prazer físico de fazer um filme. O prazer essencial é construir imagens e contar histórias. QUASE NADA é um filme que eu sonhava em fazer há muito tempo."
Assim, Sergio mergulhou em QUASE NADA como um artesão, disposto a fazer tudo e a fazer o máximo possível. Pela primeira vez, ele assina o roteiro sozinho. Roteiro escrito na Semana Santa de 1999, em uma folga da montagem de Mauá, inspirado em contos de Guimarães Rosa, Jorge Luis Borges e Maximo Gorki, de que Sergio tanto gosta.
Quase sozinho também, ele preparou o filme e filmou, em julho e agosto do ano passado, em São Pedro dos Ferros, Minas Gerais, e em Itaipava, Rio de Janeiro. Também se envolveu diretamente na criação da trilha de sons ambientes e ruídos e pela primeira vez participou de um filme como ator, representando o fazendeiro patrão do vaqueiro Ademir. Nesse sentido, QUASE NADA é seu filme mais pessoal.
INVEJA, MEDO, CIÚME
São os sentimentos que brotam em QUASE NADA. O filme traz à tona o universo psicológico do homem rural brasileiro, deixando em segundo plano o enfoque sociológico ou antropólogico que vem sendo mais explorado pelo cinema e pela literatura. Por essa razão, a produtora MARIZA LEÃO considera QUASE NADA um filme atemporal e universal.
"Os personagens do filme fogem a qualquer estereótipo. O vaqueiro Ademir, por exemplo, toma lexotan e vive as mesmas angústias e privações que qualquer um de nós, reagindo com sentimentos muito parecidos aos nossos, bem diferente da imagem
que uma pessoa urbana tem de um vaqueiro, com chapéu de palha e calça rasgada, feito Mazzaropi."
Para Mariza, QUASE NADA é também um desafio. Afinal, seu último longa, Guerra de Canudos, era uma superprodução, com mais de cinqüenta atores e com setenta cópias no lançamento. QUASE NADA representa, assim, uma mudança radical.
"Chega um momento em que você fica tentado a correr riscos e contraditoriamente há muito mais riscos num projeto como este que num filme grande, em que você consegue claramente vislumbrar onde vai atacar, como vai vender, que público atingir. QUASE NADA nasce sem nenhum elemento de obviedade de mercado, e isso, que é o mais difícil, é também o que mais me interessa. Eu estou acreditando que existe um público um pouco cansado do cinema tradicional e que quer ver histórias contadas de uma forma nova. O filme é uma mistura de linguagens; você não se sente diante de uma coisa distante de você, é quase como se houvesse um movimento que sugasse você pra dentro do filme. Isso é muito estimulante."
QUASE NADA chega aos cinemas praticamente um ano depois de ter nascido. A rapidez da produção é um ganho para a produtora: "Todo mundo está cansado de ter projeto em captação. Estou captando... esse gerúndio é a sua energia que não deslancha, que se volta contra você. Esse filme tem um frescor que me agrada, ele se viabilizou com muito pouco, não precisamos ficar no gerúndio."
QUASE NADA contou inicialmente com o apoio da RioFilme. Adiante, foi selecionado no projeto Ibermedia, programa de apoio à produção dos países ibero-americanos, e depois a BR Distribuidora entrou como única patrocinadora. O resultado, para Mariza, é um filme simples e sofisticado: "Acho que QUASE NADA vai surpreender. Primeiro, porque as pessoas pensam que o Sergio é um sujeito urbano, como noventa e cinco por cento das pessoas que fazem cinema; segundo porque o filme tem uma simplicidade que é de uma sofisticação total, e ao mesmo tempo, uma sofisticação que vem de uma extrema simplicidade. Só pode querer propor isso ao público uma pessoa que tem muita segurança de si e do que quer. Tenho certeza de que em uma hora e meia, naquela sala escura, as pessoas vão ter grandes identificações com os personagens, apesar de eles serem radicalmente diferentes delas. Esse é pra mim o segredo e o trunfo de QUASE NADA."
GENTE QUE VOCÊ NÃO CONHECE, TÃO PARECIDA COM VOCÊ
João e Compadre, Ademir e Idalina, Ernani e Glorinha são os protagonistas de QUASE NADA. Gente que a maioria das pessoas que vai ao cinema não conhece. Da mesma forma, personagens vividos por atores também pouco conhecidos do grande público; um desejo do diretor:
"Em toda a minha vida, sempre fiz questão de trabalhar com grandes atores. Em QUASE NADA, não seria diferente. Mas, pela natureza desse projeto, queria atores que fossem ainda pouco conhecidos do público. Acho que isso fez um bem tremendo ao filme. Quando você vê o personagem, você não sabe quem é, não é um ator vestido do personagem, é um cara que você nunca viu. Então, com isso, o personagem cresce, se impõe ante o ator, para no final, você constatar que tudo é fruto de um grande ator."
Sergio acredita na preparação minuciosa do elenco, ainda mais em QUASE NADA, em que o universo tratado era praticamente estranho à maioria dos atores. Assim, o diretor pediu ao elenco que chegasse à locação com bastante antecedência, para que se familiarizasse com o ambiente, conversasse com as pessoas, se aproximasse dos dramas de seus personagens.
"Acho fundamental essa preparação. Um ator que represente um vaqueiro tem pra mim que saber andar a cavalo, saber tirar leite de vaca, isso não dá pra fingir. São códigos, como as palavras. Em cinema, tudo é linguagem." A transformação dos atores nos tipos de seus personagens foi intensa. Eles acordavam de manhã e vestiam a roupa do personagem, quer fossem filmar ou não. Durante três semanas, tempo de filmagem, já não se sabia mais quem era o ator e quem era personagem. A simbiose era tanta que a produtora Mariza Leão chegou a perguntar quem era o homem que jantava na mesa junto à equipe. Era o ator Genezio de Barros, irreconhecível, na pele de Ademir.
enviada por Gardenal
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